Cloroquina e Hidroxicloroquina para o tratamento da COVID-19: Confira o parecer da SBI

Saiba mais sobre o polêmico uso das substâncias em pacientes infectados com o novo coronavírus.

Ainda sem tratamento definitivo, a infecção pelo SARS-CoV-2 é o assunto principal em pesquisas médicas e laboratórios pelo mundo. No Brasil, a situação é preocupante. Até o momento, o país ocupa o terceiro lugar em número de casos, sendo um desafio para profissionais da saúde e as medidas públicas controlarem a pandemia.

Na corrida por tratamentos e vacinas que vençam a pandemia, uma das estratégias terapêuticas que tem sido avaliada é o uso da cloroquina e hidroxicloroquina. Desde a descoberta do novo vírus, esses medicamentos vêm instigando os especialistas e causando polêmicas entre o setor.

Saiba qual o posicionamento da Sociedade Brasileira de Imunologia (SBI), uma das sociedades científicas que lideram as pesquisas sobre COVID-19 no Brasil.

Qual é o posicionamento da Sociedade Brasileira de Imunologia?

Em seu parecer sobre o uso de cloroquina no tratamento para COVID-19, a SBI esclarece que até o momento não foi descrita nenhuma terapia efetiva para a infecção, com embasamento em estudos sólidos e com resultados cientificamente comprovados. 

A Sociedade explica que o primeiro estudo sobre o uso dos componentes no combate ao novo coronavírus foi realizado na França, ainda no início da pandemia. A sua proposta terapêutica sugere que a junção da hidroxicloroquina e a azitromicina (antibiótico usado no tratamento de infecções bacterianas), pode diminuir a carga viral em pacientes tratados com esses dois remédios. Porém, com a amostragem pequena de apenas 36 pacientes e sem um grupo de especialistas para controlar a análise, o estudo não se mostrou definitivo.

Mais recentemente, outras pesquisas analisando o uso da cloroquina/hidroxicloroquina em grupos de pacientes foram publicados. Em um estudo com 1438 pacientes infectados por SARS-CoV-2, foram avaliaram 4 tipos de tratamentos: com uso da hidroxicloroquina e azitromicina, apenas com hidroxicloroquina, apenas com azitromicina e por fim, sem o uso destes dois medicamentos. 

Em comparação com o grupo de pacientes que não recebeu o tratamento com hidroxicloroquina, os testes demonstraram a incidência de falência cardíaca em pacientes que tomaram o medicamento. Em todos os casos, não foi avaliada uma melhora significativa quanto ao risco de mortalidade, concluindo que essa terapia não é efetiva.

Outro estudo realizado com 1376 pacientes hospitalizados por COVID-19, o tratamento com hidroxicloroquina não foi associada com a diminuição ou aumento do risco de intubação ou óbito quando comparado com os pacientes que não utilizaram o medicamento.

Os estudos mencionados foram criticados devido aos pacientes avaliados já estarem em um quadro avançado da doença enquanto recebiam o tratamento. Mas recentemente, houve a avaliação do tratamento de hidroxicloroquina em pacientes com COVID-19 moderada. O resultado demonstra que não houve diferença na evolução dos pacientes que usaram ou não o medicamento, porém vários efeitos colaterais da hidroxicloroquina foram observados.

Se baseando nessas evidências, a SBI conclui que ainda é precoce a utilização desses medicamentos no tratamento para COVID-19. Além de diferentes estudos não comprovarem a sua eficácia, outro fator preocupante é a falta de segurança da cloroquina e hidroxicloroquina e o risco grave de traumas físicos ou até mesmo de morte com o seu uso, devido aos seus efeitos colaterais cardíacos.

A Sociedade ressalta que apesar da mobilização e dos esforços dos profissionais de saúde e pesquisadores, para ocorrer a utilização segura desses medicamentos ainda é necessário embasamento científico aprofundado para conclusões definitivas sobre a utilização da cloroquina e da hidroxicloroquina no tratamento da COVID-19.

O que são a cloroquina e hidroxicloroquina?

A cloroquina e a hidroxicloroquina são substâncias farmacológicas que fazem parte de uma classe de medicamentos chamada aminoquinolinas. Apesar de serem usadas para fins semelhantes, as duas substâncias são distintas, sendo que a cloroquina pode ser formada como difosfato, sulfato ou cloridrato. 

Para que servem esses medicamentos?

A função terapêutica desses medicamentos estão presentes no tratamento de algumas doenças, sendo mais conhecidos por combater a malária. Diferentemente da COVID-19 que é uma causada por um vírus, os agentes infecciosos da malária são protozoários. Esses microorganismos são transmitidos pela fêmea do mosquito Anopheles, comum em regiões tropicais e subtropicais.

Além disso, a cloroquina e a hidroxicloroquina são amplamente utilizadas para tratar doenças reumáticas, como o lúpus eritematoso sistêmico e artrite reumatóide.

Quais são os efeitos colaterais das substâncias?

Os tratamentos com cloroquina e hidroxicloroquina podem causar tontura, dores de cabeça, perda de apetite, náusea, vômito, dor abdominal, diarreia, zumbido, irritabilidade, dor abdominal, visão turva e febre.

  • Com a margem de segurança estreita, essas substâncias preocupam os especialistas por apresentarem graves efeitos colaterais, sendo eles:
  • Retinopatias: são lesões nos vasos sanguíneos que se encontram na retina ocular. Essa condição pode levar a uma perda parcial ou total da visão.
  • Hipoglicemia grave: níveis anormalmente baixos de glicose no sangue, que podem conduzir a perda de consciência ou crises convulsivas.
  • Alterações na frequência cardíaca e toxicidade cardíaca: o uso do medicamento pode provocar a Síndrome do QT Longo, que é quando o intervalo produzido pelo coração é prolongado. Essa arritmia cardíaca pode causar desmaios repentinos, convulsões e até mesmo a morte.
  • Hepatite: essa doença é caracterizada pela insuficiência hepática, causando a disfunção do fígado.

Por haver riscos graves envolvidos no uso da cloroquina e da hidroxicloroquina, é imprescindível o monitoramento médico contínuo na administração dos medicamentos.

Há opções de tratamento para COVID-19 com outras substâncias?

Nos laboratórios, pesquisadores ainda investigam possibilidades e estratégias terapêuticas para a COVID-19, como a utilização de medicamentos antivirais e outras terapias. Já nos hospitais, os profissionais se esforçam em manter a saúde de pacientes com COVID-19 moderada ao combater os sintomas da doença, com analgésicos e/ou antitérmicos e medicamentos para tosse.

Já em casos mais graves — onde a frequência respiratória e o pulmão são prejudicados —  o médico pode conduzir o paciente para a internação na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Quando apresentada insuficiência respiratória, o que faz com que o paciente dependa de aparelhos para respirar, é necessário que ele permaneça acamado e tenha seus sinais vitais monitorados.

Dependendo do estágio da insuficiência respiratória, a suplementação pode ocorrer por cateter nasal ou por meio de ventilação mecânica, onde o paciente é conectado por um tubo à uma máquina que realiza a respiração artificial.

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ANFARMAG. Cloroquina e Hidroxicloroquina – Perguntas e Respostas. Disponível em: <https://anfarmag.org.br/ler-comunicado/cloroquina-e-hidroxicloroquina–perguntas-e-respostas> Acesso em: 07/07/2020.

Fundação FioCruz. Orientações sobre o uso da Cloroquina para tratamento de pacientes infectados com SARS-CoV-2, agente etiológico da Covid-19. Disponível em: <https://portal.fiocruz.br/sites/portal.fiocruz.br/files/documentos/orientacoes_sobre_a_cloroquina_nota_tecnica_.pdf> Acesso em: 08/07/2020.

Ministério da Saúde. Malária: o que é, causas, sintomas, tratamento, diagnóstico e prevenção. Disponível em: <https://saude.gov.br/saude-de-a-z/malaria#tratamento> Acesso em: 08/07/2020.

Portal PEBMED. Covid-19: orientações de manuseio do paciente com pneumonia e insuficiência respiratória. Disponível em: <https://pebmed.com.br/covid-19-orientacoes-de-manuseio-do-paciente-com-pneumonia-e-insuficiencia-respiratoria/> Acesso em: 27/07/2020.

Sociedade Brasileira de Diabetes. Hipoglicemia. Disponível em: <https://www.diabetes.org.br/publico/diabetes/hipoglicemia#:~:text=A%20hipoglicemia%20em%20situa%C3%A7%C3%B5es%20extremas,variar%20de%20pessoas%20para%20pessoa.> Acesso em: 15/07/2020.

Sociedade Brasileira de Imunologia. Parecer Científico da Sociedade Brasileira de Imunologia sobre a utilização da Cloroquina/Hidroxicloroquina para o tratamento da COVID-19. Disponível em: <https://sbi.org.br/2020/05/18/parecer-da-sociedade-brasileira-de-imunologia-sobre-a-utilizacao-da-cloroquina-hidroxicloroquina-para-o-tratamento-da-covid-19/> Acesso em: 30/06/2020.

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